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Out 09
Por zedeportugal, às 18:45 | comentar

A justeza das escolhas do povo ou a surpreendente sabedoria do inconsciente colectivo.

 

Como já havia referido aqui, em condições de livre escolha (ou, pelo menos, com condicionamentos moderados) observa-se com frequência uma inexplicável sabedoria nas escolhas colectivas dos povos. Terá sido, uma vez mais, o caso? Vejamos:

 

1. É justo ou não que um partido que não muda o seu discurso, a sua imagem e a sua liderança há... - há quanto tempo é secretário-geral Jerónimo de Sousa? - tenha sempre aproximadamente o mesmo número de votos?
A CDU aumentou um pouco a sua votação. O bom resultado eleitoral nas Europeias e a forte contestação a muitas acções do governo poderiam fazer pensar num resultado melhor. E assim seria, provavelmente, sem a concorrência directa do BE, em especial nos votos dos mais jovens. De qualquer forma, as eleições legislativas não são o ponto forte da CDU, ao contrário das autárquicas que se aproximam e nas quais – estou convicto – esta força política vai recuperar muitas das Câmaras que perdeu anteriormente para o PS.
2. É justo ou não que um partido que aproveitou (diria mesmo explorou) o enorme descontentamento (diria mesmo revolta) dos jovens com a situação de precariedade laboral para que cada vez mais predominantemente são empurrados, tenha tido mais cerca de 200.000 votos que nas eleições anteriores?
O BE teve um bom resultado eleitoral e constitui agora, cada vez mais, uma poderosa força de protesto, pois esse é o principal suporte da sua acção política, fruto da vontade colectiva da maioria dos seus militantes e apoiantes.
3. É justo ou não que um partido que assumiu com tanta coerência e determinação a defesa dos interesses da sua clientela eleitoral tenha aumentado a sua votação em cerca de 500.000 votos?
O CDS foi o partido que mais fez crescer a sua votação relativamente às eleições legislativas anteriores e, também, relativamente às previsões das sondagens - os “sondageiros” nunca mais aprendem que a maioria das pessoas que votam CDS não respondem a inquéritos por telefone sobre a sua vida e as suas preferências.
4. É justo ou não que o partido liderado agora pela militante que tanto desdenhou e criticou o anterior presidente, por este ter obtido 28,7% dos votos expressos nas legislativas anteriores, tenha agora obtido 29,1% desses mesmos votos?
O PSD foi, ou melhor, continuou a ser um partido derrotado. O que os números dizem é que nunca chegou a recuperar da má imagem que criou para si mesmo a partir da legislatura de Barroso.
5. Finalmente, é justo ou não que o partido do poder tenha perdido aquilo que o tornou (e que ainda perdura) a mais perigosa ameaça à liberdade individual e colectiva da nação desde o período da ditadura? É justo ou não que o povo obrigue agora este partido e, especialmente, este líder arrogante a governar em minoria, suportando as consequências da sua anterior (muito má) legislatura e suportando o desgaste para a imagem dos ditos a que isso inelutavelmente conduzirá?
Com este resultado, o PS não perdeu as eleições, mas muito mais do que isso: perdeu o poder, ou melhor, entrou num prolongado e intravável processo de perda do poder semelhante àquele em que o PSD entrou há cinco anos atrás.

 

música: http://www.youtube.com/watch?v=Or4iCp2CYpc

E quando é que se começam a meter políticos corruptos na prisão? Estou-me a lembrar de vários do PS, do PSD e do CDS. Para clarificar mais as coisas?
Diogo a 2 de Outubro de 2009 às 22:22

Há várias formas de o fazer, Diogo.
O mais imediato, mais brutal e com efeitos secundários mais perversos, passa por seguir o exemplo de Itália há poucos anos: nomear um conjunto de juízes com poderes especiais e avançar com uma operação "mãos limpas".
Outra forma mais consistente, mas também mais morosa e mais difícil será mudar o sistema da democracia portuguesa. E aqui há várias hipóteses. Pessoalmente, a solução que defendo como a mais justa, avançada e eficaz é a de transformar o sistema democrático representativo num sistema democrático semi-directo (à semelhança da Suíça ou da Califórnia), que permite manter os partidos mas transforma-os em agentes ao serviço do público, com duas características que afastam à partida os aldrabões (ou os castigam): prestação de contas (political accountability) e rescisão de mandato (recall elections). Claro que para isso acontecer, é preciso ficarem explícitados na Constituição tais poderes e a forma de os exercer, designadamente a formação de um corpo legislativo próprio para conduzir a prestação de contas, bem como a organização do sistema referendário de suporte à rescisão de mandato.
Para mais informações, consulte, por favor este outro blogue, onde pode descarregar livros e documentos vários sobre este assunto:
http://democratadirecto.wordpress.com/
zedeportugal a 3 de Outubro de 2009 às 00:27

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