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Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 20:16 | comentar

Estes dias pautados pelo debate político são sobretudo oportunos para perceber como é que os portugueses se auto-posicionam politicamente. Os momentos mais caricatos são aqueles em que o gatuno chama malandro ao ladrão, em que o perneta se gaba por correr mais rápido que o coxo, e, os meus preferidos, em que socialistas insultam outros com o epíteto de “esquerdista”.

 

Tomando as coisas mais a sério, não que ver dois loucos a diagnosticarem-se mutuamente não seja caso sério, convém chamar de uma vez por todas as coisas pelo nome: o que é «socialismo»? (Vamos esquecer as respostas fáceis com clichés de “esquerda” e “direita” que servem em grande parte, pelo menos em Portugal, para inaugurar uma frágil distinção entre socialismo e socialismo moderado.)

 

Podemos resumir brevemente «socialismo» como a doutrina que defende (pelo menos) que:

 

Moralmente o Estado tem o dever de zelar pelo bem-comum dos cidadãos, o que lhe confere o direito de, formalmente, praticar a redistribuição da riqueza produzida em ordem a possibilitar e manter estruturas sociais igualitárias para todos os cidadãos.

 

Aceitando esta definição, qual o partido de peso não-socialista em Portugal? Ainda de forma mais visível, o que tem sido a constante dança de poder PS versus PSD senão o alternar entre um socialismo assumido e um socialismo mitigado?

 

Parecendo-me que o exposto é evidente, onde buscar a explicação para o facto dos nossos chamados partidos de “direita” se recusarem a assumir a sua ideologia de base socialista?

 

Na prática a omissão resulta em estratégia eleitoral: a cisão artificial entre os partidos da dança dá aos eleitores uma falsa ilusão de escolha. E com os  partidários a coisa funciona numa espécie de clubismo / tradição política sem verdadeiro referente ideológico, um pouco à imagem dos sportinguistas que odeiam os benfiquistas (e vice-versa) precisamente por serem ambos de Lisboa e partilharam o mesmo território /tacho.

 

Que grande parte do eleitorado vá na cantiga como quem leva o cachecol à bola é assumido. Mas por mais que a esmagadora maioria da auto-proclamada elite intelectual faça uso de retórica, não disfarça o cachecol aos ombros.


(Sem entrar na discussão sobre a corrupção que percorre de alto a baixo a política portuguesa)

Cara Elisabete, será você uma dessas magníficas pessoas que não precisa do Estado para nada? Capaz de, sozinha, cuidar do seu sustento, da sua saúde, da sua propriedade?

A propriedade é uma convenção social garantida pelo Estado. Sabe disso?
Diogo a 6 de Agosto de 2009 às 22:01

Seria bom ouvir um pouco as pessoas em causa a assumirem a sua ideologia (o objectivo do texto) em vez de torcerem a conversa de modo a atacar outras ideologias. Indirectamente essse tipo de reacções são já um assumir, mas falta explicar porque há tanto desconforto de PSDs e afins em dizê-lo explicitamente.

A Elisabete começa o texto a falar em autoposicionamento dos "portugueses" e depois menciona coxos, pernetas, mentirosos e gatunos. Fico depois, aparentemente, elucidado quando menciona políticos e partidos. Aliás, aí ainda entendo a preocupação com possíveis autoposicionamentos .
Contudo, após esta última resposta ao comentário do Diogo, fico a saber que o texto era um "isco" para os ditos "portugueses" se declararem sem "discursos torcidos". (Seja o que for que isto queira dizer, se calhar é a oportunidade de quem não se enquadrar no liberalismo de Elisabete vir bater no peito e fazer mea culpa, acusando-se "Eh pá, confesso! Sou socialista!")
Gostaria de saber, só por curiosidade e pondo os partidos de parte, se no "mundo das ideias políticas" da Elisabete apenas existem "socialistas", "socialistas moderados" e "liberais".
PF a 6 de Agosto de 2009 às 23:37

Falo do "mundo" dos portugueses que se revêm nos dois principais partidos que foco. No mundo político existem outras ideologias sim, mas na vida política que Portugal tem tido não, e isso vê-se pela tal dança de pares que os tais partidos fazem há décadas.

A maioria dos portugueses mantêm enraizada a herança de Oliveira Salazar, preferem ser governados a governarem-se, protegidos a protegerem-se. O socialismo assenta nas mesmas raízes do fascismo, que não existiu em Portugal, mas uma sua deriva, encontrando no atraso cultural da população terreno fértil por onde regime e oposição proliferaram, durante quase meio século. Ainda hoje as pessoas pretendem um emprego no Estado, a segurança para toda a vida, querem que o governo regule preços máximos, serviços mínimos e outros disparates. PS e PSD, partidos miméticos despidos de ideologia, procuram aproveitar a oportunidade, governando-se, e aos seus. Sim, a Elisabete tem razão, o imenso centrão , ou bloco central de interesses, não passa de socialismo, se olharem bem para a constituição das listas de candidatos do PSD, que é aquilo senão ocupar o partido com os amigos, para se os portugueses o permitirem, colocar o Estado ao seu dispôr.
António de Almeida a 6 de Agosto de 2009 às 23:57

Muito bem, outro grande texto.
AntónioCostaAmaral (AA) a 7 de Agosto de 2009 às 01:44

Excelente texto. Mais sobre o assunto neste post http://oreplicador.blogs.sapo.pt/23682.html
Filipe Faria a 10 de Agosto de 2009 às 02:08

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