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Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 22:11 | comentar

No seguimento do post anterior, (sobre porque é que partidos de auto-proclamada “direita” não se assumem como socialistas apesar de o serem), interessa-me mais perceber como é possível que não haja sobre isso uma consciência generalizada, e os efeitos que isso tem no debate político em Portugal.

 

Não pode haver “novos rumos” sem que isso dependa do conhecimento das actuais coordenadas daquilo que se pretende mover para outro ponto, tal como mudanças na direcção dos assuntos políticos em Portugal não se podem fazer sem a consciência da ideologia de que partimos.

 

Ora, o que acontece é que os partidos (incluo militantes e simpatizantes) de direita portugueses estabelecem as suas coordenadas de forma relativa a outro partido-irmão (o PS), tendo acabado por esquecer a consanguinidade ideológica para se referirem a si mesmos como (relativamente mais à) “direita”. Com esta estratégia de definição, o PSD posiciona-se no mercado partidário português seguindo os critérios da elegibilidade, em concorrência com um produto semelhante a si próprio, aumentando assim a probabilidade de seduzir habituais consumidores insatisfeitos.

 

Mas o problema de perder referências absolutas à ideologia de base acarreta um grave empobrecimento do debate político, logo da riqueza da democracia. Copiando o raciocínio da definição através de coordenadas relativas, os media qualificam de extrema-direita (com todos os tabus associados à designação), qualquer espectro político (relativamente) mais à direita que o PSD (nota para o desconforto com que a TVI 24 desconvidou o presidente do PNR para um debate, sem falar da ausência generalizada do partido na maior parte dos medias), estimulando a tendência para uma cada vez maior uniformização do leque ideológico em Portugal, com partidos como o CDS cada vez mais preocupados com a mão do Estado no social, e com a infertilidade do terreno político português em criar e fazer crescer partidos de ideologias diferentes.

 

Termos perdido o Norte no que toca à auto e hetero definição dos partidos revela um Portugal pouco filosófico e pouco preocupado com questões de fundo ético-políticas.

 

Retomar o Norte, isto é, assumir as coordenadas ideológicas dos partidos em absoluto e não relativamente à oferta já existente, é um passo necessário para que possamos tomar consciência da oferta ideológica em Portugal (muito pouco rica), o que só por si recolocaria o debate político naquilo em que ele deve estar essencialmente centrado: a livre concorrência entre morais.


Este texto tem bastante interesse e nos aspectos essenciais estou de acordo com tudo. No entanto, há algumas observações que gostaria de fazer, embora elas não tenham nada de novo:

- A dita "Direita" não ganha identidade ideológica apenas nos aspectos económicos e no relacionamento destes com o Estado. Há questões que colocam nos antípodas variados sectores do PSD e do CDS em relação ao PS, tais como o aborto, a lei da paridade, o casamento entre homossexuais entre outros assuntos relacionados com as liberdades individuais e a imposição do chamado progresso social imposto pelo Estado, bandeira de muitas franjas do PS e restante Esquerda;

- A actual lei do financiamento dos partidos e a lei eleitoral em si originam muita da mediocridade ideológica, uma vez que tornam mais propício que os partidos estejam mais preocupados com a elegibilidade e e satisfazer clientelas e patrocinadores do que com um projecto sério e alternativo para o País;

- A denominada extrema-direita, representada pelo PNR, embora seja de facto discriminada e mesmo maltratada pelos media e sectores de opinião, é mais socialista e estatista do que o CDS, PSD e mesmo que o PS. Eles diferem em assuntos relacionados com a autoridade e da imigração e relacionamento com a UE. Enquanto o socialismo dos outros é mais internacionalista, o PNR faz a diferença por ser nacionalista, e conservador nas questões sociais acima mencionadas.

Quanto ao resto, para retomar "o Norte", o caminho passa muito por se criar uma vaga de fundo - seja lá a forma que esta venha assumir - de ideias reformistas em relação à Constituição, sistema eleitoral e aparelho administrativo.
PF a 8 de Agosto de 2009 às 00:30

Obrigada pelo seu comentário que tenta acrescentar pontos de interesse para o texto. Respondendo em respeito pela ordem dos mesmos:

- Concordo que haja diferenças entre PSD e PS no que toca à simpatia expressa pelo “progresso social”, mas na prática os exemplos que referiu não são por si só definidores daquilo que o PSD e o PS representam em matéria social (há pessoas dentro do PSD a favor do aborto e no PS contra), nem essas diferenças são suficientes para falarmos de diferenças ideológicas de base.

- Apontar falhas do sistema eleitoral parece-me necessário à resolução do problema. Mas, como tentei explicar no texto, não creio que seja a causa do problema, mas sim apenas um dos vícios que ajuda a mantê-lo.

- Concordo que o PNR seja tão ou mais socialista de que os nossos grandes partidos. Não usei o exemplo do PNR como um partido não-socialista, mas sim como um exemplo de vítima da definição relativa dos partidos e dos tabus e preconceitos atribuídos à designação de “extrema-direita”.


Concordo com a sua conclusão e seria óptimo que o debate político português pudesse enveredar por essa reflexão de fundo (Constitucional) acerca das bases ideológicas que gerem a nossa vida política. Mas esse é já um estado de reflexão que requer uma prévia consciência do problema (o que tentei explicar no texto), problema esse que permanecerá camuflado, e logo não consciencializado, enquanto se continuarem a utilizar atributos sem referência ideológica como “direita” para mascarar partidos que são na verdade socialistas.

Agosto 2009
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