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Nov 09
Por Nuno Castelo-Branco, às 19:25 | comentar | ver comentários (8)

 

 

Independentemente da religiosidade ou da falta dela, os europeus conhecem bem as suas raízes, plasmadas hoje nos ordenamentos jurídicos, na arte exposta nos museus, arquitectura monumental e organização social. 

 

Ao legado cristão devemos a própria ideia de Europa, a respublica christiana que acabou por conceder ao homem, aquele primado que o aproximou irreversivelmente da imagem de deus. As liberdades civis, a ideia de conhecer o outro e de respeitá-lo como semelhante, o esmagador património cultural que acabou por partir à conquista do mundo, deve-se a uma infinidade de nomes, desde aqueles que como Santo Agostinho ao Padre António Vieira, conformaram o sentido de devir de uma comunidade que mesmo pulverizada em múltiplos senhorios e obediências, entre si encontrava os essenciais pontos de encontro que fizeram uma cultura, esta no seu espectro mais amplo. 

 

Há  uns tempos, um imã radicado na Alemanha, pretendia a erradicação de todas as manifestações exteriores que susceptíveis de conotação cristã, tornavam-se no seu sábio e barbudo  julgamento, em ofensas ao islão. Procissões, toques de sinos, exibição de arte "moralmente ofensiva" - nus, cenas religiosas e em último grau, a figura humana - e  espectáculos onde a música sacra de Haendel ou Bach fazem o programa, deveriam ser banidos dos sensíveis sentidos auditivos e visuais destes convidados de uma Europa que detestam e querem ver substituída pela sua concepção exclusivista de pastagem para borregos, cabritos, carneiros e outros espécimes caprinos. Como dizia há uns tempos a agnóstica e esquerdista professora Maria de Fátima Bonifácio, a Europa só o será, enquanto for cristã.

 

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, decidiu a favor de um processo "levantado por uma mãe" contra a Itália, dando-lhe razão quanto ao caso da exibição de crucifixos nas escolas. A questão a colocar é simples: por cada mãe dessas, quantos milhares de outras existirão que pretendem continuar ver exposta a referência da sua identidade e que jamais foram auscultadas pelos magistrados que julgam inopinadamente? Estas decisões derivam geralmente de pressões exercidas por uma ínfima minoria activista, estranhamente ruidosa nos media e que pelo vociferar e chantagem moral, vai conseguindo minar uma após outras, sociedades até há pouco aceitavelmente homogéneas e onde a consciência de grupo - seja ele nacional ou de pertença a um espaço territorial conformado pela lei aceite -, significou a estabilidade, segurança geral e a identidade que estabelece a paz e o progresso.

 

Sem que vivalma os tenha alguma vez eleito ou escolhido  através de decisão de massas - embora sejam sempre muito pressurosos quanto à electividade de certas instituições -, estes novos curandeiros que se pretendem alçar à categoria de sumo-sacerdotes de uma anti-religião, pertencem por regra a núcleos bem identificados, uns já da provecta idade oferecida por dois séculos de predomínio e outros, os pobres patetas do imediatismo, com uma enorme capacidade de espolinhamento, arrogante cobardia, passividade crónica perante o agressor e desarrazoado mental que confirma a suposição de auto-destrutiva imbecilidade.

 

Curioso será verificar que quem mais se insurge contra as "velhas crendices" e cerimoniais milenares que amalgamaram os múltiplos contributos que do norte da Europa à foz do Nilo fizeram esta Europa, são exactamente os mesmos que caem de joelhos de baraço ao pescoço, ombros nus e vendas nos olhos. Deleitando-se com os pios de corujas em cemitérios abandonados, importunam a altas horas da noite os potenciais alvos para um muitas vezes indesejado noviciado, insistindo em rastejar sobre marmóreas lousas em xadrês e perdendo horas infindas em rituais dignos de qualquer filme de terceira categoria com pretensos a ficção científica pós-VIII Guerra Mundial, passado algures num sistema planetário distante e de exótico nome. Caveiras, punhais, olhos que piscam ou se arregalam, naperons, aventais fora da cozinha, rendas, bordados, círios e tutores de iniciados, fazem o pleno da macaqueação ridícula de ritos que alegadamente dizem rejeitar. Não têm qualquer interesse que não seja o do favorecimento da superstição da seita, acirrando velhos ódios e recalcamentos pessoais que querem ver transportados para uma sociedade destinada a obedecer. Em suma, estes pobres  e cúpidos diabos sofrem de frustrações de infância perdida, decerto saudosos daquelas "brincadeiras do quarto escuro", onde nem sempre a inocência do apanha-foge-agarra era o estrito móbil do passatempo. 

 

São estes doutos juízes que julgam poder decidir a seu bel-prazer, destruindo afinal a fonte do poder que exercem tão indiscriminada como impunemente. 

 

Pelo que parece, a praticamente desconhecida e inexistente Associação Ateísta Portuguesa - que pelo que se sabe, de ateísmo tem quase nada ou pouquíssimo -, deleitou-se com a decisão das avantesmas teleguiadas pela nomenklatura de Bruxelas. Deve querer aproveitar a ocasião propiciada pelas previsivelmente nulas comemorações do Centenário da República. São exactamente os mesmos que se rendem ao bezerro de ouro das "oportunidades", negócios de casta ou manipulação nada etérea do número, o supremo senhor deificado, o tal Banco que decide por cada um e por todos. No fundo, esta gente limita-se a recuar aos tempos da adoração de ídolos, postergada pelo também lendário Abraão. Curiosamente, o grande princípio que baliza a sua grande arquitectura universal, também consiste na invisibilidade deste novo e bem identificado deus, o dinheiro que circula no éter da imaginação contabilística. Nem nisto conseguem ser originais, seguindo fielmente o princípio da divindade única, indivisível, omnipresente e sobretudo, invisível. O que volta e meia não os livra minimamente de serem atirados para a choça. Pelos seus druidas, evidentemente.

 


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