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Ago 09
Por Jorge Assunção, às 16:08 | comentar

Aquela que considera que ter "uma empregada para tirar as grainhas das uvas e os caroços das cerejas" pode ser associado à escravatura. Fazendo eu parte da direita retrógrada e impopular, segundo alguns, só posso desejar que mais pessoas houvessem que estivessem dispostas a pagar para alguém lhes "tirar as grainhas das uvas e os caroços das cerejas", entre outras coisas. Talvez o número de desempregados não ultrapassasse o meio milhão. A verdade é que Carolina Patrocínio, com todos os seus defeitos, será responsável pela criação de emprego directo mais do que a maioria dos dirigentes do Bloco alguma fez foi ou será.


Exagerado!
Daniel João Santos a 14 de Agosto de 2009 às 17:38

Não acho. Associar escravatura à situação em causa é mais do que exagerado.

Que injustiça, o Louçã também tem uma empregada doméstica...
António de Almeida a 14 de Agosto de 2009 às 17:55

Caro Jorge Assunção,

A questão não se prende com o trabalho em causa ser qualificável como "escravatura", mas com o facto de a menina escolhida pelo PS encarar a empregada como "escrava". O que é bem exemplificado pela forma como a mesma se refere ao assunto quando diz, com um sorriso inconsciente "e também as graínhas das uvas, o que deve dar uma trabalheira". Ou seja, a míuda não se preocupa com o facto de estar a faltar ao respeito - diria mesmo, a humilhar - a empregada. E é a isso que me refiro quando digo que ela vê a empregada como escrava, o que não se pensaria possível no séc. XXI e, queira-se ou não, diz muito das elites em Portugal. Penso, por isso, que o Pedro Sales tem razão na substância, ou seja, no facto de ser escandaloso, não tanto que tais trabalhos existam, mas que ainda haja alguém, para mais instruído, que se refira dessa forma em relação a uma outra pessoa.
José Barros a 15 de Agosto de 2009 às 02:53

«A questão não se prende com o trabalho em causa ser qualificável como "escravatura"»

Pedro Sales diz: "Não há contexto que explique que, em 2009, alguém tenha uma empregada para tirar as grainhas das uvas e os caroços das cerejas.". Parece-me claro que, na perspectiva de Pedro Sales, está em causa o trabalho referido.

"mas com o facto de a menina escolhida pelo PS encarar a empregada como "escrava"."

Esta diz: "Só como cerejas quando a minha empregada tira os caroços por mim. Só como fruta se estiver descascada. E uvas sem grainhas. É uma trabalheira”. Substitua empregada por mãe e o quê que há aqui de especial na conversa de uma miúda de 22 anos? É possível retirar que, tal como Pedro Sales também afirma, a miúda é tonta e mimada? Obviamente que sim, mas fiquemos por aí.

"diz muito das elites em Portugal."

Mas a menina em causa faz parte da elite?

Parece-me claro que, na perspectiva de Pedro Sales, está em causa o trabalho referido. - Jorge Assunção

Não, não me parece. Basta ver o título do post: "Será que a Carolina teve tempo de explicar ao primeiro-ministro a sua fascinante visão do mundo laboral?". O que está em causa no post é a perspectiva da menina.

Quanto ao trabalho em causa: é demagógico - para dizer pouco - que se diga que é tirar as graínhas e os caroços que dá trabalho à empregada em casa. A mesma deve fazer o que todas as empregadas fazem: limpar a casa, passar a ferro, eventualmente cozinhar. Não é tirar os caroços que lhe dá emprego; essa é uma especificidade do trabalho da pessoa em causa e que revela, de facto, uma maneira de encarar os empregados como criados, um pouco à imagem do tempo do Estado Novo.

Substitua empregada por mãe e o quê que há aqui de especial na conversa de uma miúda de 22 anos - Jorge Assunção

Se fosse a mãe, seria igualmente mau. Repare-se que a rapariga não diz que a empregada lhe faz de vez em quando o favor de tirar os caroços. Ela diz que isso é condição de ela comer a fruta, o que significa - e penso que é a conclusão que se retira - que será ela a pedir que a tarefa seja feita.

Tendo eu 28 anos e conhecendo, por isso, muita gente dessa idade, confesso que só me deparei com discursos desse género por parte da referida faixa etária umas raríssimas vezes na minha vida. Felizmente.

Falo da entrevista no seu todo e não apenas ao excerto citado. Tomta e mimada, é muito pouco. Há da parte da rapariga um sentimento de superioridade sem razão que o justifique.

Mas a menina em causa faz parte da elite? - Jorge Assunção

Utilizei o termo num sentido meramente descritivo, não valorativo. Desse prisma, a menina faz parte das classes altas, também por vezes apelidadas de elite. Mas percebo a confusão, porque o termo usualmente tem um carga valorativa no sentido de "escol".
José Barros a 15 de Agosto de 2009 às 10:09

"Não, não me parece."

Bem, basta ler os comentários de Pedro Sales: "parece-me claro que o facto de ter alguém, ou dizer que tem, para lhe tirar os caroços e grainhas da fruta revela uma forma de olhar para o trabalho, e a sua dignidade, muito pouco consentânea.". Ou leia o colega de blogue, Daniel Oliveira, "Digamos que deixámos de achar natural que algumas coisas sejam feitas por outros, mesmo a troco de dinheiro. É uma questão de dignidade.". As funções referidas estão obviamente em causa, isto porque não são, supostamente, dignas.

"é demagógico - para dizer pouco - que se diga que é tirar as graínhas e os caroços que dá trabalho à empregada em casa. A mesma deve fazer o que todas as empregadas fazem: limpar a casa, passar a ferro, eventualmente cozinhar."

É o conjunto de funções para os quais é contratada que dá trabalho à empregada. Se entre o conjunto de funções que desempenha está descascar fruta e tirar caroços, não vejo onde é que isso seja menos digno para o trabalho. Pode dizer alguma coisa sobre aquela que recorre a uma empregada para fazer tal função, mas mais nada.

"Não é tirar os caroços que lhe dá emprego; essa é uma especificidade do trabalho da pessoa em causa e que revela, de facto, uma maneira de encarar os empregados como criados, um pouco à imagem do tempo do Estado Novo."

Afinal, para o José Barros, também está em causa o trabalho referido. Embora eu ache que, para si, o que está mais em causa, é a menina poder ser utilizada como arma de arremesso contra o PS. E é um bom arremesso. Tal como tantas outras, a menina é uma péssima escolha do
querido líder, mas no que toca às palavras em causa, não associaria as mesmas, de forma alguma, à escravatura nem a qualquer visão de trabalho menos digno.

"Se fosse a mãe, seria igualmente mau."

Seria igualmente mau, ou seria natural? O que não falta são pessoas que não gostam de caroços nas frutas (entre outras coisas, aliás, existia um anúncio sobre pão de forma sem côdea, que usava exactamente coisas desse género como imagem publicitária). Vamos imaginar que a empregada tem como suas funções preparar as refeições da menina, entre as quais está a sobremesa ou o pequeno-almoço, qual o desrespeito pela empregada se esta tiver de desempenhar estas funções tendo em conta os gostos dos seus empregadores?

"Ela diz que isso é condição de ela comer a fruta, o que significa - e penso que é a conclusão que se retira - que será ela a pedir que a tarefa seja feita."

Claro que a empregada tem a tarefa como função porque lhe é pedido que assim seja, isso não tem qualquer relevância. O fazer favores não faz parte da função de qualquer empregado, em qualquer emprego do mundo.

"Desse prisma, a menina faz parte das classes altas, também por vezes apelidadas de elite."

Percebido. Mas eu não generalizava da menina para toda uma classe. Muito embora partilhe consigo alguma desilusão para com a classe alta portuguesa, logo a começar pelo facto de o Bloco ir buscar parte dos seus votos à linha de Cascais.

"Fazendo eu parte da direita retrógrada e impopular, segundo alguns, só posso desejar que mais pessoas houvessem que estivessem dispostas a pagar para alguém lhes "tirar as grainhas das uvas e os caroços das cerejas", entre outras coisas. Talvez o número de desempregados não ultrapassasse o meio milhão. "

Um raciocínio um bocado keynesiano...
Miguel Madeira a 15 de Agosto de 2009 às 16:13

Eheheh. Bem, mas se um keynesiano acha que, em tempos de crise, é benéfico pagar a alguém para abrir um buraco e logo de seguida o tapar, não deve importar-se que alguém seja pago para, entre outras coisas, tirar grainhas das uvas e caroços das cerejas. Mas existe uma diferença entre as duas situações: no primeiro caso, será o contribuinte a pagar e ninguém retira proveito directo do trabalho feito; no segundo caso, é um privado que paga, por algo que lhe dá um benefício directo.

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