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Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 13:31 | comentar

No caso da derrocada numa praia algarvia, o discurso dos media, dos políticos, e das pessoas comuns, parece de acordo numa coisa: o que aconteceu foi uma fatalidade previsível, o resultado de uma combinação de causas que podiam e deviam ter sido neutralizadas. Provavelmente uma combinação que comporta o facto de haver construções perto do local, de ter havido um sismo há poucos dias, de ter havido maré cheia, chuva, etc. Se é certo que ninguém consegue, apesar dos esforços, apontar o dedo exclusivamente a uma causa, parece consensual que a causa complexa, tão complexa que permanece indeterminada, devia ter sido antecipada e controlada por alguém.

 

Apesar do sinal a enfatizar o perigo (que pelos vistos era expectável), uma família achou seguro deitar-se por baixo da arriba. Apesar desta evidência confirmada pelo acidente, outra família foi filmada no dia seguinte a fazer praia por baixo de uma arriba semelhante. Em resposta a se tinha medo de uma derrocada, a mulher entrevistada respondeu com ar temerário e de respeito pela natureza: “Claro que tenho medo! Ai sim, sim.”, acrescentando depois, com o ar fatalista de quem não foge à superstição: “Mas as coisas não acontecem todas ao mesmo tempo, no mesmo dia ou no mesmo ano”.

 

Centrar o debate no apurar da causa da queda da arriba, e indirectamente na responsabilidade de uma autoridade pela morte de pessoas, é uma espécie de tentativa de aplicação do Princípio da Precaução gone mad, que deveria originalmente servir como guia de não-acção (levando pessoas a não se expor a situações de perigo potencial), reformulando-o de modo a aniquilar fisicamente as oportunidades de perigo, o que só uma super-entidade gestora do espaço público pode fazer, aniquilando assim a própria  necessidade do Princípio de Precaução.

 

Para além do facto de que este tipo de raciocínio é fisicamente impossível de pôr em prática (seria necessário rebentar com todos os potenciais perigos nas praias, montanhas, florestas, etc), esta reformulação permite que não se responsabilize quem fez maus juízos, expondo-se a situações de perigo, mas sim o organismo que permitiu que as pessoas se confrontassem fisicamente com situações em que a avaliação de perigo é necessária. Trocado por miúdos, é a cedência de um dos mais primitivos raciocínios de sobrevivência a um organismo colectivo abstracto – o Estado.

 

Dizer que o Estado é incompetente por ter falhado em proteger fisicamente as pessoas das suas más decisões é retirar ao indivíduo a responsabilidade de zelar pela gestão da sua própria vida. É o mesmo tipo de raciocínio que acha necessário actuar fisicamente na quantidade de sal disponível aos consumidores de pão, retirando-lhes pelo meio a própria possibilidade do exercício de decisão em vista à gestão da sua segurança/saúde/qualidade de vida. E o que não é exercitado atrofia.

 


Plenamente de acordo. Os portugueses parecem incapazes de assumir a responsabilidade dos actos que praticam. Não respeitam avisos mas, quando ocorre um acidente, a culpa é sempre do Estado (que, sendo português, não a reconhece).
José António Abreu a 24 de Agosto de 2009 às 13:51

Vi o local através da televisão, estava lá bem visível uma placa de perigo, não é possível, nem sequer desejável, colocar um polícia atrás de cada cidadão. A lamentável tragédia foi culpa em primeiro lugar da incúria da infeliz família, devemos naturalmente lamentar o sucedido, porque estupidamente se perderam vidas humanas, mas não podemos, nem devemos, responsabilizar ninguém, excepto os próprios.
António de Almeida a 24 de Agosto de 2009 às 14:16

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