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Ago 09
Por P.F., às 14:26 | comentar

 Sei que já é um clichê a ideia-frase, "Menos Estado, melhor Estado". Também todos sabemos que as doutrinas dos anos 30, dos quais provém a imagem em cima - já postada em outros blogs -, eram pródigas em advogar "Estados fortes", "líderes fortes", "nações fortes", etc. Os "ismos" proliferavam e deram os seus frutos: guerra, ódio e miséria. No entanto, houve uma lição que o Estado Novo e seu líder aprenderam: um Estado forte não é um Estado gigantesco, pleno de clientelas e tutelas espúrias nos sectores económicos. À parte oligarquias de banqueiros e de industriais muito próximos do plano ideológico do Estado Novo e de seus agentes, o papel empreendedor dos grupos económicos e da iniciativa privada era muito mais livre de amarras burocráticas e fiscais do que no momento presente.

Não me identifico com os sectores liberais que vêem na mera existência do Estado  uma fonte de malefícios. Negando-lhe atributos e planos de acção, apenas por motivos ideológicos-abstractos e não racionais ou pragmáticos. O Estado é uma projecção de um todo, um colectivo, o qual permaneceu coeso ao longo dos tempos por motivos que transcendem sistemas ideológicos e economicistas. No meu entender, o problema do actual "Estado" de coisas não tem sua causa maior na hipervalorização do Estado. Antes pelo contrário, essa causa encontra-se na laxeza, na falta de exigência, na degenerescência de valores tais como o "Espírito de Missão" e do "Sentido de Estado", o que dá origem a um Estado monstro, aglutinador, corrupto pela sua fraqueza intrínseca, parasitado pelo sistema partidário - o qual por sua vez nasceu coxo, pois não nasceu livre.

Por conseguinte, acredito que o caminho para a mudança não está na desvalorização nem na demonização do papel do Estado, pois apenas reconhecendo-lhe o devido valor, de entidade imprescindível a uma nação saudável, ele adquire a exigência e o rigor fundamentais para eliminar aquilo que nele é supérfluo e fonte de vício. E um Estado realmente forte não precisa do actual peso nos sectores económicos, nem do actual controlo centralizador da educação e da saúde, nem do actual número de funcionários - muitos deles mal pagos sim, mas devido ao seu número excessivo e mal gerido, o que dá origem à falta de exigência profissional em muitos sectores da administração pública. Bem menos serão necessários tantos cargos governativos, tantos ministérios e secretarias de Estado e quejandos, para não falar no sistema eleitoral e número de deputados, etc. - tamanho séquito para um país que se tornou pequeno. É o facto marcante das últimas décadas da história nacional, um país que se tornou pequeno em tamanho, na proporção inversa na qual aumentou a parasitagem e o vício, aliada a um Estado imenso e... fraco.

 


A que se refere quando diz Estado "forte"? Forte como um atributo do próprio Estado: forte em grau/ em extensão (se sim como)?

Parece-me que «valores tais como o "Espírito de Missão" e do "Sentido de Estado"» têm apenas a ver com a forma como os cidadãos vêm o Estado (portanto, um atributo da percepção ou relação cidadão-Estado, logo um atributo subjectivo). E se formos por aí, não falta aí quem ache que o Estado que temos hoje (e em particular este governo), é um Estado forte no respeito pelos valores lhe parece atribuir.
Elisabete Joaquim a 5 de Agosto de 2009 às 19:54

"A que se refere quando diz Estado "forte"? Forte como um atributo do próprio Estado: forte em grau/ em extensão (se sim como)?"

Procuro no texto explicar, precisamente, que um estado forte não é um estado extenso, sob nenhum ponto de vista. Uma determinada entidade não é mais forte do que outra por ter mais responsabilidades, atributos e pessoas, se não cumprir, por impossibilidade pura e simples e/ou incompetência, essas mesmas responsabilidades. Pelo contrário, uma entidade com muito menos responsabilidades mas que as cumpra de modo eficiente e mesmo implacável, essa sim poderá ser considerada forte.

"Parece-me que «valores tais como o "Espírito de Missão" e do "Sentido de Estado"» têm apenas a ver com a forma como os cidadãos vêm o Estado"

Os valores em causa actualmente são inexistentes e até mesmo mal conotados. São valores objectivos, sim. A objectividade reflecte-se pura e simplesmente nos seus frutos. Será algo ridículo acreditar que o governo -e/ou Estado, actual se rege por estes valores, pois ele nem tenta valer-se destes conceitos.
PF a 6 de Agosto de 2009 às 01:04

Continuo a achar que o conceito é subjectivo, e a maior prova será talvez que a expresão é usada por todos os "campor da barricada", como neste exemplo em que PS critica falta de «Sentido de Estado» no PSD http://tinyurl.com/n93ypg

Concorde-se ou não com a ideologia, parece-me óbvio que o governo Sócrates pretende ser um Estado forte nesse sentido, eficaz e implacável, com o sentido de missão por cumprir, ainda que contra todos. Sócrates já disse aliás várias vezes considerar-se um líder forte e já criticou outros líderes por não o ser.

O essencial é que para que o conceito de «forte» seja realmente objectivo ele não pode depender exclusivamente de quem usa a expressão, pois nesse caso ambos os lados podem com a mesma legitimidade arrogarem-se a propriedade de serem fortes. Tem de haver uma definição objectiva e rigorosa. Sem isso, ser líder forte ou edificar Estado forte não deixa de ser apenas uma questão de estilo no qual qualquer ideologia política cabe (inclusive as mais autoritárias).

Elisabete

Estamos perante então uma questão mais semântica do que ideológica. As palavras têm conotações próprias e podem ser apropriadas por qualquer um em qualquer circunstância. Claro que há uma subjectividade inerente ao conceito de forte, e essa mesma subjectividade eu abordei, argumentando que não é necessariamente errado querer um Estado forte, mas não no sentido dado pelos socialistas e pelos progressistas em geral. Assim sendo, há realmente interpretações diversas e nessas diferenças distinguem em parte a esquerda da direita. Esquerda: Estado forte para impor o progressismo, igualdade e redistribuição da riqueza; Direita. Estado forte mas poucas obrigações que lhe são atribuídas; autoridade para garantir a ordem, e interesses do País, Estado previdente e não Providência.
Ambos podem ser considerados fortes mediante quem os qualifica...

Quanto ao governo socialista e as lutas partidárias com os rivais, os argumentos estão longe de serem factos. Os valores referidos servem como argumento de arremesso, porém,enquanto facto, a realidade fala por si...
P.F. a 6 de Agosto de 2009 às 13:44

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