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Set 09
Por Elisabete Joaquim, às 12:14 | comentar

O Sindicato dos Jornalistas manifestou-se sobre aquilo que chama «a ingerência inaceitável da Administração da TVI» no caso do cancelamento do Jornal Nacional.

 

Na base da «indignação e repulsa» do Sindicato está o facto de não se aceitar que o poder económico tenha controlo directo sobre os conteúdos informativos, o que deveria ficar reservado ao Director de Informação. A Administração tem apenas um poder indirecto sobre a gestão dos conteúdos do seu canal, podendo apenas escolher que Direcção admitir ou demitir.

 

Estamos perante um repúdio da noção de que o jornalismo é um negócio como qualquer outro, e perante a premissa subentendida de que, pelo seu carácter  de pureza e neutralidade, o jornalismo não poder ser gerido por critérios de gestão económica sob pena de perder a sua aura de serviço imune às contingências humanas. Dito de outra maneira, a essência do jornalismo – o serviço público – merece um tratamento peculiar, daquele tipo de tratamento que em rigor pode apenas ser feito por uma Administração pública sem interesses económicos, o que explica a urgência com que o Sindicato exige uma intervenção da ERC (abstenho-me de comentar a irrazoabilidade de tal invasão da liberdade privada, o que o Carlos Novais já fez neste post), essa entidade que traduz a noção de que canais privados são admissíveis desde que respeitem a gestão que seria feita por uma administração pública, o que contraria a própria natureza da gestão privada, não necessariamente orientada para o «bem geral», mas sim para um mercado específico da procura.

 

Problemas esses que seriam evitáveis se neste país se assumisse que o jornalismo não é a santa virgem de olhar neutro e balança na mão. O jornalismo orienta-se naturalmente para um segmento de consumidores com propriedades específicas, as quais vão desde a simpatia por um certo tipo de opinião, a preferência por um certo estilo jornalístico, e a identificação com a predominância de um certo tipo de temas sob investigação. E nesta lógica de jornalismo livre, e subsequentemente necessariamente humano e direccionado, não faz sentido repudiar uma gestão orientada do mesmo. A TVI é um canal privado e deveria poder orientar livre e directamente os conteúdos que emite.

 


Concordo que o jornalismo deveria ser livre, como livre deveria ser o lóbi, não me repugnaria de forma alguma ver órgãos de comunicação social assumirem uma posição editorial clara, nem sequer é preciso ir muito longe, aqui ao lado quem compra o El Mundo ou El País sabe ao que vai. É assim em todo o mundo livre e desenvolvido. Em Portugal pretendemos dar imagem de virgens impolutas, fazendo da independência e isenção uma obrigatoriedade, que na prática ninguém respeita, ainda que alguns se esforcem por transmitir essa (falsa) ideia. A comunicação social está longe de ser o único sector económico onde existem pressões, apenas tem mais visibilidade, mas num país onde o Estado controla de forma quase absoluta importantes sectores da sociedade, como saúde, educação ou transportes, e ainda detém posições de destaque ou grande influência através de golden share na energia ou comunicações, já nem falando que uma administração que absorve grande parte do PIB, condicionará fortemente, ou promoverá mesmo abusos, as empresas privadas que dela dependem. A liberdade do país aumentará na medida exacta em que diminuir o peso do Estado na economia e sociedade.
António de Almeida a 4 de Setembro de 2009 às 13:02

Está-se mesmo a ver que o critério que deu origem às demissões em causa não tiveram em conta liberdade nenhuma nem aspectos de linha ou eficiência editorial. O que foi tido em conta foi nem mais nem menos que pressões advindas do actual governo. Agora se quisermos escamotear a realidade em função de idealismos, é que podemos dizer que foi um mero acto administrativo que teve em conta critérios economicistas.
P.F. a 4 de Setembro de 2009 às 14:11

As razões que levaram a Administração da TVI a tomar a decisão são em rigor vedadas ao público, mas claro que se pode especular e há antecedentes que apoiam essa especulação. Não foi esse o tema deste post, assunto que já foi sobejamente tratado aqui no blogue.

E isso não apaga a crítica necessária a juízos que pretendem uma separação total entre gestão económica e informação, como é defendido implicitamente pelo Sindicato de Jornalistas, crítica essa que este post pretendeu fazer.

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