28
Ago 09
Por zedeportugal, às 11:14 | comentar | ver comentários (3)

Se Rui A. é (como eu penso) Rui Albuquerque, que eu tenho lido muitas vezes com gosto no Insurgente, então estou mesmo muito surpreendido com este texto que publicou no Portugal Contemporâneo. Tão surpreendido que nem sei muito bem por onde começar a refutar.


Numa apreciação critica muito rápida, posso (ultra)sintetizar a minha impressão na seguinte afirmação: penso que o actual primeiro-ministro estaria completamente de acordo com aquilo que escreveu.

 

Muito sucintamente, sobre o conceito de ética:
Os liberais acham muitas vezes ser seu dever acreditar que a ética política deve ser diferente da ética pessoal. Muitos definem a ética política como ética da responsabilidade, acreditando que essa ética é uma forma mitigada do clássico princípio republicano de Maquiavel de que os fins justificam os meios.
Outro erro comum do pensamento liberal é aceitar que o político é muitas vezes obrigado a tomar decisões que envolvem meios não muito aceitáveis para alcançar objectivos de interesse ou bem público.
Nada pode ser mais falso. Os fins nunca, mas mesmo nunca, justificam os meios. Se alguém é confrontado com uma decisão contrária aos seus princípios de ética pessoal, não deve tomar essa decisão. Não existe mal menor: só existe o mal.
Mas eu digo de outra maneira, para liberal perceber: Não existe um bem maior, colectivo, que deve supostamente sobrepor-se ao bem individual: só existe o bem.

 

Sei que o que afirmo contradiz o pensamento político (intelectualmente correcto) dito do republicanismo democrático, com origem em Maquiavel e com ideais expressos por autores como Tocqueville ou Arendt.
Enquanto cristão e defensor da democracia (semi)directa, acredito que é perfeitamente possível fazer política de outro modo, que não este da conquista do poder pelo poder, da ansia de domínio de alguns homens sobre todos os outros que conduz, impreterivelmente, à servidão individual e ao conflito colectivo.

 

Nota: Comecei este texto como comentário na caixa do referido post do Rui A. no Portugal ContemporÂneo, mas à medida que fui escrevendo comecei a pensar que seria importante tornar visível a mais gente esta resposta.

 


26
Ago 09
Por Cristina Ribeiro, às 17:49 | comentar

mas aqui muito bem explanada, com todas as suas implicações, a mostrar à saciedade a índole de alguns que se propõem " representar os portugueses ", naquela casa que cada vez mais contribui para que esta seja uma República das Bananas,

Entregues à bicharada?


Por Cristina Ribeiro, às 17:22 | comentar

só agora o pude ler. Uma leitura que faz um pouco de luz para quem se esforça por saber como é que o estado da actividade política chegou a este buraco escuro em que nos encontramos; se cá fosse como lá, tudo seria muito mais claro, sem as " sem vergonhices " que marcam a nossa actualidade; mas como querer que uma  Assembleia que se comportou como comportou, nas barbas de toda a gente, aquando do Inquérito ao Caso BPN , seja diferente?


21
Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 10:49 | comentar | ver comentários (2)

Manuela Ferreira Leite provou ontem na Grande Entrevista RTP1 destacar-se grandemente, em qualidade, da onda de políticos que submerge (eufemismo para “afunda”) Portugal neste momento.

 

Deixando a sua entrevistadora, habituada à retórica dos políticos e a perguntas-respostas-maravilhas-vazias, pouco à vontade com o seu índice de ausência de maquilhagem do discurso, Manuela Ferreira Leite afirmou que preferiria perder votos do que ser infiel aos seus princípios. O que uma atitude desta, diremos de fundamentalismo ético, tem de bom é que é consciente de um grave problema que pode decorrer da cedência a interesses partidários ou a “calculismo político” (mesmo que com a boa intenção de união do partido ou  com o mitigado dever de sacrifício pelos votos): os partidos tornarem-se servis das suas próprias lógicas de interesses, isto é fechados, em detrimento de servirem o país. O fundamentalismo ético que Manuela Ferreira Leite adopta é a única forma, de certo drástica para muitos, de fazer política como um meio para servir as pessoas, e não o contrário.

 

Ainda na lógica os fins não justificam os meios, devíamos dar graças por termos neste momento pelo menos um político em Portugal que se recuse a apresentar propostas não exequíveis. Se o governo de Sócrates nos tinha habituado a algo era ao quebrar total das fronteiras entre realidade e ficção, até a um ponto em que muitos portugueses parecem de facto acreditar que o bom político é o bom psicólogo de massas, aquele cujo objectivo é dar alento, fantasia, esperança. “Avançar” é de facto uma palavra estimulante da psique humana, mas nalgum momento os portugueses teriam de acordar e ver que a fantasia de nada serve se não sabemos para onde/a que custo avançar.

 


16
Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 20:20 | comentar | ver comentários (17)

No blogue Jamais, as querelas internas (entre “inimigos figadais”, como assume José Pacheco Pereira), e sub-internas (com o PS, na figura do blogue Simplex), pelo poder continuam.

 

A lógica de ataques/preferências pessoais em detrimento de argumentação ou razões teóricas tocou o seu máximo expoente neste texto em que um comentador do Jamais “comenta” um texto do Simplex não com contra-argumentos, mas sim com aquele que será talvez o maior golpe sujo a que se pode recorrer na política: denegrir a família (não a família política, a família real) de quem escreve, para depois inseri-lo no saco dessa raça desprezível que por nascimento não merece sequer debate.

 

O que é mais preocupante aqui nem é tanto que PS e PSD estejam com isto a esfregar nas nossas barbas que a luta que encetam pelo poder é para o poder, e que nessa luta não se valem de argumentos porque isso significaria que estamos a falar de uma luta política ou teórica, mas não estamos. O que se passa nos blogues dos partidos da chamada força política central é em grande parte uma recriação daquilo que acontece quotidianamente na AR: 90% discurso de guerrilha e insultos pessoais e muito poucas energias gastas na discussão de problemas exteriores, isto é, Portugal. E pelo tom que a coisa toma, tanto na AR como nos blogues, seríamos levados a crer que os nossos políticos se orgulham dessa fibra guerrilheira, como se as suas pequenas querelas interessassem aos cidadãos, fartos do autismo bélico dos seus políticos.

 

Mas o que mais preocupa é que golpes como aquele que está em causa sejam usados com tal leviandade, e que o debate político tenha chegado a este ponto em que a redução da política aos pessoalismos se tenha tornado recorrente e inócua (o que se confirma por muitas das reacções pós-post). Chegámos a um ponto em que o discurso acéfalo e amoral é sem dificuldade caracterizado de “político”.

 

Portugal pode ter muitos problemas estruturais politicamente falando, derivados da ditadura, da revolução, da Constituição, da própria matriz do sistema, mas o maior problema da política portuguesa deve-se  à sua falta de cultura Ética.

 


13
Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 13:22 | comentar | ver comentários (19)

Houve um roubo na empresa. Os empregados estão nervosos porque o chefe ficará furioso e temem que um deles seja despedido. Procuram o responsável para o obrigar a sair da empresa voluntariamente e desconfiam de uma pessoa que já no passado levantara suspeita sobre si. Você não sabe se essa pessoa está culpada desta vez.

 

Propõe/não se opõe a que obriguem a pessoa a sair para apaziguar os ânimos da empresa e não propiciar possíveis animosidades do chefe?

 

Nota: a empresa em questão trabalha em consultoria ética.


10
Ago 09
Por Elisabete Joaquim, às 13:30 | comentar | ver comentários (8)

Uma intuição antiga, hoje plenamente confirmada, leva-me a crer que a política é sobretudo Estética para os portugueses. A tradição do poeta-político mantém-se (seguindo Antera de Quental, Teixeira de Pascoaes ou Almeida Garrett, conforme a casa política), e a esmagadora maioria da elite política (aquela que comenta ou faz política), guia-se mais por critérios estéticos do que racionais, o que explica em larga parte a dissonância cognitiva patente no debate político português.

 

A Estética, contrariamente aos assuntos científicos, não exige sistema nem coerência da parte do sujeito. Pode-se simpatizar com o Belo de dia para escrever sonetos do Abjecto à noite, nada que a complexidade sensitiva humana não comporte. Aderir a ideias políticas por motivos estéticos tem outro desfecho.

 

Não se pode, sem incoerência, defender um Estado que não se intrometa nas vidas privadas para depois defender a conservação de privilégios sociais; Não se pode, sem incoerência, criticar o socialismo para depois defender a necessidade de um gestor Forte das vidas públicas; Não se pode, sem incoerência, ser contra a intromissão do Estado na economia para de seguida defender que impostos sociais devam ser cobrados; Não se pode, sem incoerência, defender a liberdade individual para depois advogar a inocuidade do uso de força ilegítimo por parte do Estado. A lista poderia continuar e tocar todos os quadrantes políticos com expressão em Portugal.

 

O erro consiste em falhar em reconhecer quais os princípios morais adjacentes a ideias defendidas, sendo que é precisamente dos princípios morais que depende a construção de um sistema coerente de ideias. Aderir a ideias por motivos estéticos não só revela insensibilidade ética como permite que uma mesma pessoa defenda ideias contraditórias entre si, ideias às quais aderiu por questões emocionais, pelo prazer intelectual ou sentimental que lhe causam. Num contexto destes, o uso emocionado de bandeiras é frequente. Ser conservador ou liberal em Portugal resume-se a um combate vazio entre duas escolas estéticas. E o referente dos próprios conceitos de conservadorismo e liberalismo muda como os conceitos de belo ou sublime consoante a escola de pintura.

 

A aplicação na sociedade de tal mistela de ideias pode apenas dar em tragédia, o que, ironicamente, faz assim regressar a política portuguesa ao seu berço estético.


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